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O que leva alguém a fazer cirurgia plástica?

 

O cirurgião plástico Dr. Juarez Avelar, especialista em reconstrução de orelhas, fala sobre a cirurgia plástica estética e sobre o imaginário da “cirurgia milagrosa”. Avelar trata ainda de questões como o aumento da procura de cirurgia pelos homens e esclarece as causas desse fenômeno.

Artemoda: Em 2001 a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica declarou que o Brasil é o país em que mais se faz cirurgias plásticas. Por que isto ocorre?

Dr. Juarez Avelar: Primeiro porque estamos na segunda maior sociedade de cirurgiões plásticos do mundo em número - a primeira é a dos Estados Unidos. Proporcionalmente, temos mais cirurgiões plásticos no Brasil do que os Estados Unidos. Outro aspecto é a divulgação. O público, as pessoas, as novelas falam abertamente sobre isso, o que estimula as pessoas a fazerem cirurgia plástica. Em outros países o assunto não é tão popular ou tão divulgado como é aqui.

AM: Os meios de comunicação influenciam muito as pessoas a fazerem cirurgia?

Avelar: Sim, muito. Tanto é que no fim da década de 80, começo de 90, o tamanho da prótese para aumentar os seios era de 120 milímetros, 140 ou, no máximo, 160. Hoje, a média é de 200 milímetros, 240 ou 250, por demanda do paciente. A divulgação do meio leigo é de seios grandes, as pessoas passaram a ver que o seio grande é mais bonito que o seio menor. A televisão fala todo dia de prótese de silicone, de paciente siliconada, paciente que colocou prótese de silicone no carnaval etc. Isso estimula as pessoas a fazerem também. Há um papel importante das mídias que reflete muito na mente de cada um.

AM: Que tipo de cirurgia é a mais procurada?

Avelar: A cirurgia de face, para tratar o envelhecimento. Na realidade, toda pessoa um dia vai precisar dela. Não é toda pessoa que tem um seio grande ou um seio pequeno, mas a cirurgia da face tem uma indicação muito mais ampla. Todo mundo envelhece.

AM: Qual é o critério dos cirurgiões para ver se o paciente precisa mesmo de uma cirurgia estética?

Avelar: A indicação é do próprio paciente: é como ele mesmo se vê, a imagem que tem de si mesmo. Se um paciente vai a um médico e faz um tipo de queixa, o médico, ao meu ver, vai atender ao que ele está apresentando. Não necessariamente vai fazer como ela quer, mas atender a queixa. Se a paciente chega no consultório e reclama que tem seios grandes, eu vou analisar se o seio está em proporção com o resto do corpo. Existe o aspecto subjetivo, que é próprio de cada pessoa, como cada um se vê diante do espelho, diante dos outros, e o aspecto objetivo.

AM: O aspecto subjetivo é muito forte em alguns casos? Como proceder?

Avelar: A pessoa relaciona sua imagem dentro de uma faixa de tempo. O paciente vê suas fotos e não está bem. Vai à televisão e vê que não está bem. É algo que vai se somando. Não é de um dia para o outro, nem de um ano para o outro. Cabe ao cirurgião analisar o aspecto subjetivo e o aspecto objetivo de cada pessoa. Não é porque seu paciente quer fazer uma cirurgia que o cirurgião deve fazer. É um balanço que tem que ser muito bem dimensionado.

AM: A cirurgia milagrosa é um desejo comum, principalmente contra o envelhecimento?

Avelar: É uma idéia fantasiosa, irrealista. É preciso adequar o que o paciente pensa àquilo que se é possível fazer. Às vezes ele quer resolver problemas de outra natureza que não a da cirurgia plástica. Temos que ver qual é o desejo dele e encontrar a alternativa dentro daquilo que está procurando.

AM: Existe uma distinção entre pessoas que não se encaixam nos “padrões de beleza”?

Avelar: Não vou dizer distinção, mas há uma censura. Está tão popular hoje se falar em cirurgia plástica que as pessoas, no geral, não admitem que alguém tenha um nariz grande, um queixo pequeno, uma característica física que seja notada por outra pessoa, principalmente na face.

AM: Há procura maior de cirurgia estética para os homens do que alguns anos atrás?

Avelar: Com certeza. Há muito mais homens procurando a cirurgia plástica do que há 20 anos. Tanto a cirurgia de face quanto a de nariz e de lipoaspiração.

AM: Por que isso ocorre?

Avelar: A idade cronológica [sic] aumentou. Hoje, o homem com 70 anos tem uma atividade maior que não tinha há algum tempo. A pessoa convive mais com seu trabalho e no seu dia-a-dia tem uma necessidade de se apresentar melhor. É saudável, é normal que um homem se preocupe com sua imagem quando vai à televisão, quando está em contato com outras pessoas.

AM: O senhor trabalha com cirurgia plástica desde quando?

Avelar: Trabalho com cirurgia plástica desde 1974 e minha especialidade é a reconstrução de orelhas. Pessoas que nascem sem orelha ou a perdem por causa do câncer ou de um acidente. Eu crio uma nova orelha com o próprio tecido do corpo. Fiz diversos trabalhos de anatomia porque essa é uma cirurgia que até hoje é muito difícil de ser feita.

AM: Quantas cirurgias o senhor faz, em média, por mês?

Avelar: Varia muito. De quinze a vinte por mês.

 

Fonte: Sociedade e Moda